Friday, July 14, 2006

Adiante, camarada

Nuno José Ribeiro

Ficção apresentada ao “Prémio Barata-Novas Escritas 2001”

“Eu quero ser a Revolução. A Revolução, A Revolução. De arma na mão! Com atenção. À reacção!”

O jovenzinho imberbe veste de preto. A inevitável t-shirtzinha com a celebérrima imagem do camarada Che. Imago mundi? Na cabeça, boina preta efeitada por estrela vermelha.

Em redor do jovem “Pushckin”, um bando de estudantes. Eles de ganga e lenços étnicos, elas de saias compridas, sandálias de couro, lenços e mochilas de lona.

A sala explode em aplausos. O poeta agradece. É sempre bom ver reconhecido o talento, para mais por parte duma mole acéfala e acrítica. Viva a Revolução.

-Camarada! Estás na vanguarda do combate à reacção. Contigo, com jovens com tu, a reacção não passará.

-Obrigado camarada! diz o poeta, com uma emoção contida nos olhos. “Com um brilhozinho nos olhos”, diz a canção.

A sala explode em aplausos. Hoje há festa na célula. É o aniversário do partido. O grande facho da vanguarda contra a opressão burguesa.

Hoje, jovens, inocentes e eternamente jovens, e velhos, senís e obtusos, comemoram décadas de delícias torcionárias. A crueldade em nome da luz. O império do Gulag.

A sessão iniciou-se com a leitura de uma mensagem do Grande Torcionário,esse velho de cabelo branqueado, émulo de Torquemada, seguida de um video com a exibição do Rancho Folclórico de Nossa Senhora Vermelha dos Urais.

Depois o lanche. Bolas-de-Berlim-Leste e Sumolovsky.

A teminar, qual estrêla vermelha no topo, um baile.

Não um baile qualquer, desses com os quais a burguesia decandente e opressora perde o seu tempo em boites e discotecas, escuras e sujas como a mente e os dedos do capital.

Não! É um baile canónico. De acordo com os príncipios vermelhos.

É um baile em que o roça-roça é uma forma de luta contra a opressão, a reacção e o Grande Império do

Mal- os Estados Unidos e o seu all-mighty dollar. Uma mão na cintura liberta 50 kmers vermelhos, passar a costa da mão no mamilo liberto da menina vale meia UCP.

E, lentamente, os jovens camaradinhas vão fazendo a ocupação selvagem das jovens Latvias, Laikas e Catarinas Eufémias.

“En route” ao Grande Objectivo Final: a tomada da seara, umas vezes dourada, outras morena, outras fulva, pelo grande libertador. Falocracia e luta de classes.

E entre a monda e a seara ergue-se, estoicamente a Grande Muralha da Mãe-Camarada.

“ Revolução, revolução, sim. Com a minha filha não!”

O jovem visionário prossegue a sua retórica persuasiva. A cada Karl Marx a sua Madame Engels. E eis o martelo que se levanta, a foiçe metida em seara alheia. Enfim libertos do espartilho opressor da moral burguesa.

Os jovens- Carlos Ernesto e Rosa Fidel- estão já lutando arfantemente por uma sociedade sem classes em que tudo e todos serão uns dos outros. E a canção…do bandido é uma arma.

A entrega à causa, o despojamento, o altruísmo, a força das convicções dogmáticas, são tais que estão já libertos de qualquer roupa, essa invenção capitalista que distingue pobres e ricos, como outrora o ferro dos condenados.

Não! Estão já nús, iguais entre sí, nos corpos distintos, mas unidos na luta por um mesmo desejo. E a boca do jovem Puschkin verte já elogios aos gémeos de Rosa Fidel, irmanados e erectos na acção revolucionária.

O olhar do pequeno Carlos Ernesto percorre com brilho visionário todo um corpo ardente de vontade de lutar. E, por fim, eis chegado o momento da tomada do Palácio de Inverno.

A jovem vai-se encantado com o canto de sereia dos amanhãs que cantam.

Não, não passarão. Sim, oh sim. Oh siiiim. Estou… estou-me a ver … na revolução.

E eis que verte o sangue vermelho escuro de quem se inicia nos ardores revolucionários.

Hoje são dois, amanhã, porventura, três. Há que formar heróis para partir os dentes à reacção.

Carlos Ernesto arrulha com voz de pomba não alinhada:

-Insulta-me!

Rosa Fidel responde “ Capitalista! Sim, meu porco capitalista opressor!”

Rosa Fidel sente Carlos Ernesto firme como se fora o Homem de Aço ou o Homem de Mármore.

Os ardores revolucionários deram os seus frutos. Em Novembro, quando se comemora a Revolução de Outubro, Rosa Fidel e Carlos Ernesto tiveram o seu primeiro bolcheviquezinho. Uma criança perturbada.

Chamaram-lhe Vasco Otelo.

Desde os seus dois, três anos que o Vasquinho subia para os bancos e debitava discursos histéricos e inflamados sobre a forca e a muralha de aço.

O padre da paróquia, generosamente cognominado “o Kerensky de Nafarros”, à míngua de melhor ocupação, alfinetava-o chamando-o “paranóico”.

Carlos Ernesto continua a sua luta pela revolução poética enquanto Rosa Fidel enbarrigava a olhos vistos.

Nos entretantos, Carlos Ernesto dedicava-se com ardor beático à conversão de jovens burguesas às delícias socialistas, tocando-as com a ponta da sua estrêla vermelha.

Com o afinco, empenho, altruísmo e espírito de sacríficio daqueles que se dedicam às grandes causas, esta alma despojada, qual mártir revolucionário, não perdia oportunidade de exibir a grandeza dos seus argumentos às infelizes -perdidas na sociedade consumista.

Com o tempo, criou um bando de seguidoras dedicadas e generosas ao ponto de sacrificarem os seus corpos à vanguarda da Revolução.

E, no entanto, Rosa Fidel,numa clara cedência à medíocridade e mesquinhez burguesas,estranhava:

- Por que razão só tens seguidoras?

-Porque as mulheres são mais inteligentes e corajosas, respondia-lhe Carlos Ernesto.

A mulher socialista é uma visionária. Vê para além da mesquinhez quotidiana. Percebe que não importam as pequenas mediocridades e infidelidades quotidianas. Trabalhar, pagar contas. Não! Nada disso importa. Seja.

Enquanto debitava pela enésima quinta vez o Rosário da Nossa Senhora Mãe de Todas as Revoluções, Carlos Ernesto aproveitava para despir Rosa Fidel. À míngua de melhores argumentos…

Como diz um brocado comunista, “ uma mentira, mil vezes repetida, torna-se verdade”…

E, en passant pour M. Hegel, o presente não tem só efeitos sobre o futuro; também modifica o passado. Os heróis de ontem são os biltres de hoje, os esquecidos de amanhã. Por isso, há-que apagá-los das nossas fotografias colectivas, como ensinam as testes revisionistas.

À boa maneira da Santissima Inquisição, a verdade é sempre só uma. Tudo o mais são desvios, devaneios, cendências aos cantos da sereia capitalista.

E é preciso punir exemplarmente quem insiste em não ver a Luz.

“Aprender, aprender sempre”.

Este texto é do Nuno José Ribeiro; a linha abaixo é porque fui eu a colocá-lo na página e não consigo apagá-la…

Posted by JCN at 17:14:33
Comments

3 Responses to “Adiante, camarada”

  1. gosto muito! parabéns, nuno! adiante, camarada!

  2. Maria Joao Monteiro Tavares says:

    Um texto excelente no conteúdo e na forma. Na 1ª, pelos pressupostos, pela crítica incisiva, irónica, mordaz, oportuna e contextualizada. Na 2ª, pelo estilo - períodos curtos,parágrafos diminutos. Dá-lhe muito ritmo, permite uma leitura rápida, ritmada, muito dinâmica. É uma leitura “orelhuda” que prende imediatamente.
    Parabéns, Nuno! Avante com a palavra!
    MJ

  3. Anonymous says:

    Um conjunto de lugares-comuns martelados sobre as teclas como quem prime um gatilho de uma espigarda ébria.

    Quem disse que “uma mentira, mil vezes repetida, torna-se verdade” não foi o “brocado comunista” mas um tal de Paul Joseph Goebbels - um “crítico de arte” que deixou sem actores “a mole acéfala e acrítica”. As letras também produzem danos colaterais, às vezes em quem as dispara.

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