Thursday, August 17, 2006

tanto (a)mar - alex gil

tenho a certeza de que vou morrer no mar. ninguém acredita. nem sequer tu, mesmo embriagado pelo terceiro charro do dia. estou tonta. não sei se é efeito do cheiro da erva se da tua mão entre as minhas pernas. as gaivotas parecem-me aviões. um esquadrão a sobrevoar a praia. ris e concordas. mais uma foto do céu, tirada com o telemóvel através do pára-brisas. digo-te que olho as nuvens em busca de forma familiares. mas minto. já não tenho esses devaneios infantis. mudo de conversa. ajeito o vestido. aproxima-se um carro. e nós aqui, armados em exibicionistas. falas do que sei e não quero ouvir. estragas tudo. tens esse dom maldito de me trazeres de volta à realidade. apagas-me o desejo. meto a marcha-atrás. já não quero partilhar o mar contigo. apenas a morte.
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Friday, August 11, 2006

A inevitabilidade da ausência e as saudades

Dizem que a saudade é um sentimento típica e unicamente português. Apesar de me considerar típica e unicamente portuguesa, não consigo partilhar desse sentimento. Pelo menos por pessoas.

Quando estou fora, tenho saudades dos cheiros, da comida, da educação, da música, da imaginação, criatividade e improvisação portugueses.

Porém, quando estou por terras lusas não consigo sentir saudades pelos que estão fora. É que nem me lembro que existem! Nem que partilhemos vidas. Durante anos lidei com a situação de ausência. Quando passava tempo demais, tinha até de consultar registos de imagem para me lembrar da cara da criatura. Não tenho alma de Penélope.

Definitivamente só sinto falta das pessoas quando estão presentes.

AnaGod

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Tuesday, August 8, 2006

mesa amarela (alex gil)

 alex 2006

a mesa amarela. seria a sua última imagem. aquele cenário que tantas vezes fotografara quando a cidade a sufocava e ia até à outra margem em busca de uma solidão sem sobressaltos. teria de ser a mesa amarela a imagem de despedida. tivera sempre a certeza de que a morte iria encontrá-la no mar. mas naquele final de tarde, o rio já lhe parecia suficiente.

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