Oh, Cindy…
Cindy
A nossa história acabou. Não posso mais olhar a nossa imagem milhares de vezes repetida nos livros, no cinema, e até em invólucros de chocolates e pastilhas elásticas. Suportei quanto pude, mas foi demasiado tempo, quase 300 anos a fazer de conta, a representar um falso amor, um falso casamento.
Sim! Ainda hoje não acredito, como foi possível sustentar um casamento não consumado todos estes anos. Lembras-te como eu te suplicava: - Vamos fazer amor Cindynha, vamos apimentar o nosso conto de fadas. Mas tu, sempre sorridente e trocista, respondias: - Querido, não extravases o teu papel, essas cenas não constam do nosso contrato nupcial. - Não posso ser vista suada e desgrenhada, já basta ao que me sujeitei no passado, sempre suja e enxovalhada.
E eu que te amava acedia durante mais um século à uma vida de celibato. Mas, agora basta!, não posso mais reprimir a minha masculinidade, aliás tenho que te confessar, que nos últimos anos te traí algumas vezes, ligações passageiras, a odaliscas das Mil e uma Noites e a personagens sobejamente conhecidas de outras histórias, que o meu pudor e descrição não me permitem reproduzir com mais detalhes.
Não imagines porém, que a simples ausência do amor carnal, foi o motivo bastante para o meu afastamento. Não, não foi essa a única razão para esta separação. A origem reside em mim, no meu descontentamento, na insignificância do meu papel a teu lado, no desequilíbrio da nossa relação.
Exercita comigo a memória do nosso passado e vê que imagens construímos; Tu sempre e em qualquer situação uma mulher maravilhosa, eu um simples príncipe apagado, sem país, sem vida própria e até sem nome. Olha mais um pouco, Cindy, se tens dificuldade em recordar vê em DVD, ou lê nos livros, vê como só existi para te servir e para satisfazer os caprichos de um autor caquéctico. Ah! Como eu abomino aquela cena do baile, a dançar sempre a mesma valsa, a tal da meia-noite, sem sequer poder falar, ou suspirar, já que também a fala me era negada, para que tu pudesses brilhar.
E como se não bastasse, ainda havia a tua fuga, e depois a parte ridícula de tu seres uma mulher de sapato de número único e eu patético a acreditar e a descalçar-te aquela horrível soca e a colocar-te um sapato de cristal. Recuso-me a repetir mais as mesmas cenas, não quero ser mais esse príncipe não identificado. Eu quero ter uma personalidade só minha, eu quero um papel principal.
Estou decidido, vou abandonar-te, mas não te preocupes, que não te desamparo, já falei com o Perrault sobre a nossa separação e ele concordou ajudar-nos, a ti vai manter-te na mesma história e propõe um “casting” para escolheres um novo príncipe figurante, quanto a mim vai adaptar-me a um novo projecto do realizador Almodôvar. Apesar de não saber ao certo que papel vou representar, já estou a trabalhar intensamente no meu novo personagem, treinando diariamente corridas de saltos altos e expressão corporal, também deixei crescer o cabelo e estou a aprender a maquilhar-me.
Suspeito que me está destinado finalmente um grande papel, quem sabe o de um super-herói, eu sempre ansiei ser um super-herói, daqueles com dupla personalidade, que usam fato e gravata durante o dia, e vestem fatos bizarros e collants à noite, para seduzir a humanidade.
Não me procures mais, provavelmente se me voltares a ver não me irás reconhecer, desejo que encontres a felicidade, adeus Cindy.
O príncipe que em breve terá um nome