Thursday, March 29, 2007

MARIA DO CÉU

Um manto azul forte e inconstante acariciava com doce melancolia a pequena rampa por onde subiam barcas e frágeis traineiras, arrancadas ao mar pelos pescadores. Fugiam aos inesperados e revoltosos temperamentos de um oceano sempre indomável. O dique de rocha negra e áspera embrenhava-se nas águas, criando uma defesa natural aos avanços violentas do Atlântico.

Logo que a tarde soava no relógio da Matriz, Guilherme Bento descia, apoiado na sua bengala e curvado não se sabe se ao peso dos anos ou das incontáveis fainas marítimas, a pequena ruela empedrada de blocos negros e rectilíneos. Cruzava os homens de pele morena e secos de carnes que por ali deambulavam e atirava:

- ‘Tarde, pessoal!

- ‘Tarde ti Mito… – respondiam os outros.

Ficavam depois a vê-lo desaparecer por detrás do muro do velho cais, só surgindo quase na ponta. Passo pequeno e lento, cachimbo de cana apagado ao canto da boca, boina em tempos branca cravada na cabeça, pele tisnada por muitas horas de sol e sal, olhos pequenos mas vivaços.

No extremo de um pontão de cimento, paralelo ao dique de rocha, repousava uma pequena pedra. Havia quem dissesse que fora o próprio mar que ali a colocara para que o velho Guilherme gozasse o resto dos seus dias, contemplando o horizonte onde os azuis distintos se juntavam. Vivia só, numa singela casa de um piso, caiada de branco e que adquirira no auge da sua vida de pescador. O que comia ninguém sabia, mas exalava frequentemente de sua casa o aroma característico a peixe frito.

A tarde mantinha-se serena, sem vento. No céu, o anil alternava com o plúmbeo das nuvens. Mas sem qualquer ameaça de chuva. Na enseada entrou uma traineira de casco vermelho forte. Trazia atuns e cavalas. Assim que a embarcação encostou ao pontão os homens saíram apressados. Na ponta repararam na figura mirrada do mestre Guilherme. Alguém tentou gracejar:

- Será que ele ainda a espera?

Os outros conhecedores e respeitadores da história antiga e mal dissolvida pela amargura dos anos, miraram com desdém o autor da graçola.

Mestre Guilherme sempre vivera agarrado àquele imenso mar. As suas primeiras memórias, colocam-no com apenas cinco anos no barco do avô. Num dia de pesca. E que dia… Gorazes, chernes, corvinas e sabe-se lá mais o quê… Um carrego daqueles era uma vez na vida de um homem do mar. Quando a traineira arribou ladeira acima puxado pelos homens, logo surgiu a mãe em pranto:

- Ai desgraçado! Tão pequeno e já nestas vidas. E eu aqui tão apoquentada que já prometi uma vela à Nossa Senhora da Saúde.

O mar viria naturalmente a ser o seu futuro. Primeiro com o avô, mais tarde o pai e finalmente ele como Mestre da velha traineira. Um fado cruel e injusto que ele preferiu, aos bancos desconfortáveis da escola. Um ofício tão implacável que tantas vezes pensou em desistir. Mas quando olhava aquele azul tão negro e escutava aquele som tão claro contra as rochas, tudo se esvanecia e depressa regressava ao remendo das redes para nova campanha.

Anos a fio sulcou ondas e vagas numa vontade intrépida contra o mar. O sol, a chuva e o vento haviam sido os seus companheiros permanentes. Quantas vezes sentira que o seu dia tinha chegado, tal era a tormenta, a engolir de um trago a frágil traineira. Mas Deus ou fosse lá quem fosse, retirava no último instante à imensidão quase infinita do oceano o pequeno pesqueiro e colocava-o novamente no cimo das cristas brancas e bravias.

Já homem feito enamorou-se certo dia de Ana, também ela filha e neta de pescadores. Todavia a jovem tinha outras ideias para o seu futuro e logo que a oportunidade surgiu, embarcou para a América. Um desaire na vida de Guilherme. Uma ferida que nunca soube sarar.

Naquele singelo banco, Mestre Mito – era assim que os mais novos o conheciam – perscrutava o horizonte, em silêncio. A uma milha, pouco mais, um pequeno ilhéu erguia-se do mar como de uma fortaleza se tratasse. Uma milha entre dois destinos. E o mar azul, mar de azeite por agora, entre eles. E uma história ou um mistério por desvendar.

Naquela madrugada, Guilherme aprontou tudo para partir para nova faina. O sol ainda nem despontara quando largou a caminho de um oceano permanentemente em mutação. O vento de norte crispava as primeiras vagas, que rodeavam a embarcação como um novelo. Fugindo às correntes a traineira lutava contra um malagueiro feroz e impetuoso. À direita permanecia imóvel o velho ilhéu.

Todavia sempre que mestre Mito circundava tal rochedo, invadia-o uma sensação de que alguém ali o mirava de um jeito diabólico. Assim o pescador e os seus homens fugiam daquele destino. Porém nessa manhã a corrente parecia mais forte, tentando indomar-se à força dos velhos motores da traineira. De súbito alguém avisou:

- Mestre, não se consegue passar as correntes. Estamos a ser levados para o ilhéu.

- Vira tudo a bombordo e regressamos a terra – ordenou o comandante.

Só que o mar não estava pelos ajustes e mesmo após a manobra, aquele continuava a empurrar a embarcação para o enorme rochedo. Experiente e conhecedor, o velho pescador solicitou via rádio ajuda a outros barcos.

Num instante surgiram diversas traineiras muito maiores e que lidavam bem com aquele mar. Mas o mestre apenas solicitou que levassem os homens para terra. A barca era com ele. Nem quis qualquer ajuda para rebocar a sua velha embarcação, herança de pai e avô.

Respeitando a vontade férrea de Guilherme, os homens passaram a custo para os outros barcos e regressaram a terra firme.

Do cimo da enseada os companheiros viram a luta que o seu Mestre mantinha com as vagas, as correntes e o ilhéu. Alguém conhecedor daquelas fainas, previu com um agoiro:

- Aquele dali já não se safa. A corrente de norte é muito mais forte que o barco. Ainda vamos ter para aí uma desgraça. E aquele homem é tão teimoso!

Conhecia-o bem doutras fainas.Casmurrice era coisa que não faltava a Guilherme Bento. Mas fora essa mesma tenacidade e perseverança que tantas vezes lhe salvara a vida e a demais companheiros. Os olhares viviam aqueles instantes cravados no horizonte, ansiosos e descrentes. A chuva que entretanto começara a cair não fez ninguém arredar pé do velho ancoradouro. Todos admiravam a força de um homem contra a natureza. Mas esta jamais se deixaria domar, mesmo por um velho lobo-do-mar.

As vagas encapelavam-se e rebentavam quase em cima da frágil traineira. Lá dentro o homem só, tentava tudo. O ilhéu crescia, crescia. E o mestre tentava, tentava.

Uma forte onda caiu por fim com violência no convés do barco, quebrando-o por completo. Estava irremediavelmente perdida a guerra. O mestre tentou ainda uma última manobra mas a água entrada já nem saía. Afundava-se finalmente a velha traineira, enxada de tantos cavadores de mar.

Num assomo de força e perseverança, mestre Guilherme só com a água como companhia tentou chegar ao rochedo negro e silencioso. Uma nova vaga arrastou-o contra as pedras, mas ainda assim a sorte protegeu-o, deixando apenas alguns arranhões nos braços e nas pernas.

Já em terra, naquele naco de rocha que ele nunca visitara e que temia, sem nunca saber realmente a razão de tal temor, tentou resguardar-se do temporal. Na aldeia piscatória, quando o mar tragou duma vez só a embarcação todos julgaram que o mestre havia também desaparecido. Os sinos tocaram a rebate naquela tarde, mesmo contra a vontade de alguns amigos de mestre Bento. Dois dias mais tarde, um velho pescador lançou a sua barca e foi procurar peixe para o ilhéu como era seu hábito. O mar estava sereno desta vez e foi com um grande susto que encontrou o Mito, deitado em cima uma rocha, dormitando.

Sem perguntas de ambas as partes regressaram nesse momento à aldeia. Quando chegaram muitos se dirigiram, questionando e congratulando-se com a vida poupada pelo mar.

No dia seguinte, Guilherme Bento aproximou-se do pontão de betão e aí encontrou a pedra. Sentou-se, carregou o fornilho do cachimbo, acendeu-o e mirou o mar com tristeza.

Um dos seus velhos companheiros, ganhou coragem e perguntou-lhe nessa célebre tarde:

- Que procuras aqui, homem de Deus?

- O que perdi! – Voltou secamente. ?

- E o que é que perdeste?

- A minha traineira, a Maria do Céu. Aguardo aqui, pacientemente, que o mar ma devolva ou então que me leve para junto dela…

Posted by José da Xã at 22:18:48 | Permalink | Comments (1) »

Thursday, March 22, 2007

Mensagem Pendente…

Ainda tenho 20 minutos. É só pôr o rímel e fico pronta. Está tudo muito bem, nada de rugas, nada de borbulhas, a maquilhagem está perfeita.

A saia podia ser um bocadinho mais comprida, mas que se lixe. Se é para ser, é mesmo assim. Os sapatos… são lindos, altíssimos de verniz rosa. Ele vai gostar. Vai babar.

Vamos lá à última verificação. Cabelo, check, maquilhagem, check, mini-saia e sapatos altos, check, perfume… ui falta o perfume. O da Donna Karan, o que ele gosta. Um pouco de perfume nos pulsos, peito, pescoço e nuca. Perfeito. Tudo perfeito. Só falta vestir o casaco e pôr as chaves na bolsa.

No meu telemóvel faltam 5 minutos para ele chegar. Não posso ficar assim tão ansiosa. Ainda fico enjoada. Vou ver um bocado de televisão. Sempre me distraio e o tempo passa mais depressa.

O que é que está a dar? Ah a Oprah… sobre doenças. Hum… não me apetece. As notícias também não… novelas muito menos. Música! Boa, é isso vou abanar-me um bocadinho para me descontrair. Eh pá estes sapatos são tramados para dançar, deixa-me cá tirar o casaco para não transpirar. Tenho de treinar dançar com estes sapatos, que horror…! Olha a figura que eu faria, nem tinha dado por isso. Ainda bem que experimentei aqui, sem ninguém a ver. Na na na, na na na na… esta música é o máximo!

Está atrasado ele… que estranho não é costume. Se calhar é melhor ligar para ver se demora, se está preso no trânsito. Não… calma, ele deve estar aí a chegar. Olha o aspecto que dá! São 10 minutos apenas. Deixa-me cá sentar e ver se já começou o Jay Leno. Nada…

Oh que seca! Ele sabe perfeitamente que eu detesto esperar. E nem diz nada. Que grande idiota! Bem, vou deixar-me de coisas e enviar uma mensagem a perguntar o que se passa. “Olá. Já tou pronta. Tás muito atrasado?” Enviar… Então…? Ficou pendente? Deve estar a passar num túnel ou assim. Estranho… continua pendente. Vou esperar mais um bocadinho e depois ligo, quero lá saber, estou farta de estar à espera.

Fui eu fazer a reserva em meu nome. Vamos chegar para lá de atrasados. Oh mas que chatice, isto agora já está a passar das marcas. Vou ligar-lhe e pronto. Olha esta agora…?! Agora diz que o número não está atribuído, estou feita. Já me estou mesmo a passar. Três quartos de hora atrasado e sem justificação. Daqui a pouco desligo o telefone e pronto! Não quero nem saber! Eu aqui toda produzida e ele feito estúpido, não aparece e com o telemóvel desligado. Realmente, haja paciência…

Bom, já passou uma hora. E ele sem dizer nada, o parvalhão. Vou ligar à Lili. Sempre desabafo. Olha, também me diz que o número não está atribuído. Estou-me a passar, o que é que se passa com estes telefones todos hoje?

“Tou Ana…? eh pá finalmente consigo falar com alguém, bolas! Então não é que estou à espera daquele palhaço há mais de uma hora e nem aparece nem diz nada, nem atende o telefone…?! Estou-me a passar! A seguir ligo à Lili e a mesma coisa, vê lá, que o número não está atribuído, ou lá o que é… Estou eu aqui toda arranjada porque íamos jantar e já só tenho vontade é de partir a cara a alguém… Vens já para aqui? Para quê? Deixa-te disso, não é preciso, estava só a desabafar. Mas se quiseres aparece. Ele já não deve vir, e mesmo que venha, eu é que já não saio. Palhaçada… Vens com a Sofia? Tá bem. Ligo-lhe eu ou ligas-lhe tu? Ah, ok ligas tu. Então vá, beijinhos, até já…”

—–

“Tou Sofia, é a Ana. Olha, a Maria tá outra vez vestida à espera do Zé Manel. Diz que tá atrasado. E ligou à Lili também. Eu disse-lhe que íamos lá, eu e tu. ‘Bora lá. Já passo aí a apanhar-te. Desce…”

- Quem é que lhe vai dizer desta vez? Dizes-lhe tu, Sofia? Eu já não tenho coragem…
- Ok, eu digo… mas como é que é possível? Já passaram quase 4 meses e ela continua nisto. Todos os fim-de-semana o mesmo número.
- Pois… não sei. Não sei o que terá sido pior. Se eles terem morrido, se eles terem morrido juntos. O Zé Manel e a Lili, juntos! Quem diria… Coitada da Maria. Bom, já chegámos, ‘bora lá então…

AnaGod

Posted by at 13:30:20 | Permalink | Comments (3)

Wednesday, March 21, 2007

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Somos tão sozinhos, não somos? * Lá estás tu a criar centros de dor onde eles não existem. * Estás a chamar-me masoquista, por acaso? * Não, mas às vezes pareces uma cabra com sentimentos. * Bela resposta essa, vinda de um filho da puta carente. * Vá lá, passa-me mas é o cinzeiro e vamos fumar mais um. * Isso dá-me sono, já nem consigo articular uma frase que faça sentido. * Ficas tão engraçada quando te esqueces das palavras. * Agora estás a chamar-me palhaça? * Pára com a birra, que não tens idade pra fitas.* Mas que raio estou eu a fazer aqui? * Sabes tão bem ou melhor que eu. * Muito gostas tu dessas frases enigmáticas. * Dantes não dizias isso, lembras-te? * Já foi há muito tempo, esqueci-me. * Mentes tão mal, coras como uma criança com medo do castigo. * Ah, de palhaça passei a miúda? * Dá uma passa e ouve a música. * Isto? De onde saiu esta coisa? * Bolas, era o teu CD preferido, passavas horas a ouvir a faixa três em auto-repeat. * Eu, tens a certeza que era eu? Deves estar a fazer confusão. * Eu ia lá confundir-te alguma vez? * Vá, tira a manápula da minha perna. * Estás a armar-te em difícil, nem parece teu. * O quê, não posso ter subentendido aí um puta?! * Mas que queres tu, afinal? * Sei tanto como tu, ora essa. * Não, não vais começar a fungar. Não suporto discussões com lágrimas. * Fica descansado, que isso aconteceu uma vez e por acidente. * Nunca pensei que conseguias chorar. * E tu, em vez de me dares colo, assumiste-te como vampiro. * Deixa isso agora, vem pra cama que é tarde e tive um dia daqueles. * Está bem, eu rendo-me. Mas antes responde-me. Somos mesmo sozinhos, não somos? 

 

Posted by alex at 01:25:36 | Permalink | Comments (2)

Monday, March 19, 2007

Estamos todos tão sozinhos

O autor Paulo Nogueira, que foi convidado no último curso, faz o lançamento do seu último romance, “Estamos todos tão sozinhos”, no El Corte Inglês e os antigos alunos estão todos convidados. Será no restaurante do sétimo andar, quarta-feira dia 28 de Março, às 19h00. Também deve estar presente o Manuel Valente, editor da ASA, que já foi convidado em dois cursos. Será uma boa ocasião de “combíbio” e de trocar impressões sobre a situação política e o sentido da vida.
Posted by JCN at 13:30:45 | Permalink | No Comments »

Wednesday, March 14, 2007

Canhão

As palavras saem à pressa, numa velocidade estonteante; a cortar o vento, a cortar a carne, a rasgar, a rasgar, a rasgar. Flechas e espadas reluzentes, mais rápidas do que consigo pensar. Do que quero.

Pensar.

O latejar do cérebro fura-me a massa cinzenta e eu não quero ser cinzento neste mundo grisalho. Não! Tudo se passa em duplicado, triplicado, numa dose maciça de informação que me obstrui as veias. Quase morro sem a certeza de saber se estou vivo, se alguma vez estive. Vivo. Ou não, pouco importa. A vida não espera por nós e nós também não lhe faremos o favor. As palavras são frenéticas, as frases são curtas. Vivo ou não, a quem importa? Cale-se o testemunho de palavras que ninguém vai ouvir; não há tempo para carpir. Em fábricas de brincar, fábricas de fugir. Vivo não, a alma está morta. A aceleração de palavras que tombam no chão como carros fendendo a estrada em dois, em três, em tantos pedaços de uma só vez - becos sem fim. Imagens breves em flashes, relâmpagos manchando os céus. Aclaram-se as masmorras por detrás dos véus. Tudo fica na retina de quanto alcançam os olhos. Mortos e feridos. Luzes néon a esvoaçarem. Paredes de cimento. Electrochoques. Os raios rebentam no betão. As dores sufocam-me o fato polido. Em loucura insana asfixio. É o rodopio neste carrossel atroz. Tenho de sair.

Sair.

Desta sociedade de pressão avulsa, onde o cérebro sempre, sempre pulsa e o coração, qual canhão, dispara o homem-bala.

Posted by Marcus Aurelius at 13:26:02 | Permalink | No Comments »

Monday, March 12, 2007

Jantar de confraternização e má língua

Na próxima sexta-feira, dia 16 de Março, vamos morfar e reinar num jantarzito com as vítmas do último curso - o quinto, terminado faz pouco. Mas os antigos alunos em crise criativa ou com ataques de saudades também estão convidados, para o que bastará ligar ou emailar para a Susana Santos, no número e endereço do costume. Desta vez vamos abancar no restaurante, mesmo em frente à escada rolante do sétimo, às 8h30 - não venham tarde, please, pretty please! (Vou ter de levar os meus filhinhos, coitadinhos - já lhes disse que se não se portarem bem lhes torço o pescoço - mas não aconselho ninguém a meter-se na mesma alhada. Isto de ser pai solteiro tem muito que se lhe diga…)
Posted by JCN at 20:13:46 | Permalink | Comments (4)