Wednesday, May 30, 2007

GAIVOTAS EM TERRA

I. As colegas invejavam-lhe o brilho cristalino do olhar, os dedos esguios de unhas afiadas e longas e o colo elegante, onde pontuava sempre um fino colar cinza, feito de penas. Tinha um andar dengoso e bem compassado, que fazia os homens voltarem a cabeça quando passava - nem o jovenzito paquete se furtava a lançar um olhar de apreço, quando se cruzavam nos corredores da empresa.

Os homens…oh, esses, coitados,  estranhavam-lhe o carácter tranquilo, a serenidade de uma solidão assumida. Todos, mas todos mesmo, lhe estranhavam os silêncios prolongados, o olhar perdido no horizonte. Mas, c’os diabos, qual horizonte, se em volta era tudo paredes brancas e quadros de planeamento?

Estranhavam particularmente as ausências inesperadas - desaparecia e, só passadas umas horas, é que voltava a surgir na sala, como que por encanto, fresca e airosa, como se estivesse regressada de um hamman. Ainda assim, nunca deixava trabalho em atraso e se lhe perguntavam por onde tinha andado, respondia, zombeteira, que tinha ido ver o mar.

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II. Aguçou-se com acerto na aspereza das rochas. Catou-se com impaciência nervosa e, deitando um olhar rápido à esquerda e à direita, apreciou a situação: a pacatez dos velhos à beira mar, esquecidos já do tempo, a luxúria dos corpos vigorosos e jovens, esquecidos ainda do tempo, a traquinice dos miúdos, ignorantes do tempo…Desfrutou do espectáculo, com gozo sublime. Subitamente inquieta, rodou no horizonte:  morria a luz do entardecer. Fazia-se tarde. Espreguiçou as asas com altivez, empertigou-se e apontou à linha da costa com precisão astronáutica, lançando-se nas alturas.

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III.  Com o passar dos anos habituaram-se à suas bizarrias e deixaram de lhe prestar atenção.

No dia do funeral compareceram os colegas em peso - estimavam-na, embora  não a conhecessem bem, porque era inofensiva, dotada de uma estranha calma que não entendiam, pois estava sujeita à mesma pressão de todos, lá dentro. E, sobretudo, nunca lhe adivinharam a dupla personalidade.  Nem mesmo quando o cemitério se encheu de gaivotas lamurientas na hora do cortejo fúnebre…

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Miriam 

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Wednesday, May 23, 2007

Novo curso de escrita

Já está programado mais um curso - desta vez será contínuo, ou seja, com aulas de segunda a sexta, das 19h00 às 21h00. Começa a 21 de Junho e termina a 11 de Julho. Há algumas (subtis) alterações ao conteúdo. Os convidados serão indicados em breve. As inscrições já estão abertas na forma do costume; basta preencher o impresso nos balcões do El Corte Inglés. Os antigos alunos podem ir às apresentações dos convidados ou aparecer quando lhes apetecer; conforme o espaço na sala, são sempre bem vindos. E também se podem inscrever para o curso, caso ainda precisem de mais uma achega…
Posted by JCN at 13:51:06 | Permalink | Comments (1) »