Tuesday, July 31, 2007

ON-OFF

Desligou a tv o rádio o computador, os telemóveis e o despertador. Atirou com o jornal a agenda e o calendário para a goela do ecopapelcartão. Fechou a porta à chave deixando o mundo lá fora, meteu-se num banho de espuma sais colónias e óleos essenciais, fechou os olhos e o coração.

E mentalmente agradeceu ao santo progresso a bendição

da invenção

do botão

de desligar…

Miriam

Posted by Miriam at 02:35:23 | Permalink | Comments (1) »

GRAMÁTICA ELEMENTAR

I.    Pretérito Perfeito: amou mas temeu

II.   Indicativo: é falso - não apresenta direcção

III.  Futuro do Conjuntivo: quem amar depois da hora, chegará mais cedo a nenhum lugar

IV.  Condicional: amaria se tivesse ousadia

V.   Infinitivo pessoal: des-amar beatamente na paz do senhor

VI.  Gerúndio: des-amando com alegria haverá menos dor

VII. Imperativo: des-ama bem, agora e sempre, amen

VIII.Particípio passado: des-amado a pedido e por favor

 

T.P.C.:

Conjugar o verbo matar em todos os tempos aqui indicados acompanhado de flores e sorrisos. Quem apresentar lágrimas e suspiros será acusado de plágio e impedido de prosseguir os estudos.

 

Miriam 

 

 

Posted by Miriam at 02:17:19 | Permalink | No Comments »

Pretérito-mais-que-imperfeito

Contaram estrelas, brindaram aos dias de sol, planearam viagens que nunca iriam fazer. Miraram-se na lua cheia e descarada, como num espelho que não devolvia imagens mas apenas o bafo da vida. Mergulharam no brilho das águas,  indefesos e nus como crianças. Esqueceram as horas, ignoraram as folhas do calendário e acordaram alagados em suor, culpados e medrosos como manda a bendita tradição.

Na igreja da vila cantava-se glória a deus nas alturas - que acabámos de matar mais dois ainda vivos contra nós.

MIRIAM

Posted by Miriam at 01:27:15 | Permalink | Comments (1) »

Tuesday, July 24, 2007

a sala é improvável numa casa por aquelas paragens rústicas. ampla, despojada e ao mesmo tempo acolhedora. sentada numa cadeira está uma mulher. entoa um sotaque que se vem a saber tem origem numa cidade com nome de tribo, algures no brasil. uma terra de açúcar, que os portugueses aproveitaram para expandir a sua doçaria. é magra a mulher. e enrugada como qualquer pessoa que se encaminha para o fim. o brilho do olhar estrábico não o adivinha, contudo. sorri ao beber uma chávena de café. nunca perde a postura senhorial com que comanda os destinos da conversa. lá fora no pátio, dois gatos. um está preso porque foge para os pátios vizinhos. as pernas da mulher marcadas pelas veias não tremem. os temperos alentejanos são demasiado fortes para o seu paladar, mesmo assim apetitosos. a mulher é demasiado polida para queixas. despede-se das visitas com beijos que sabem ao açúcar da tal terra de índios. estende as mãos de dedos finos para prolongar o adeus. e elogia a juventude.
Posted by alex at 22:19:02 | Permalink | Comments (1) »

Sunday, July 22, 2007

Julho já lá vai!

Ontem não foi um dia vulgar!

 O sol esteve lá. A praia deixou-nos saborear a sua cálida areia, refrescada de quando em vez, pelas habitualmente poluídas águas do Tejo.

 Consentiu-nos que estendêssemos a toalha e nos deitássemos de barriga para o ar, a contar estrelas que nâo víamos…

 Mas faltou qualquer coisa a este tão avançado mês de Julho…

Faltou a disponibilidade para o ócio… Faltou aquele calor que enlanguesse os corpos e os torna vulneráveis à proximidade de outro  corpo que se deseja escorregue no nosso.

Uma gaivota mais atenta poisou na beira do muro que separa a zona balnear da zona mais urbana e saracoteou-se.

O vento, frio e violento para esta altura do ano, quase arrancava as palmeiras dos oásis fingidos que ainda assim, resistiram.

 A «sereia» viu aquilo tudo e foi tomar banho, indiferente e convencida.

Nada mais aconteceu.

Agosto, será certamente, um mês mais convidativo.

Posted by MCM at 21:11:19 | Permalink | Comments (6)

Thursday, July 19, 2007

Um dia, seremos todos excêntricos…

 

Talvez nos encontremos , por aí, descentrados. para lá ou para cá do centro!

Seremos  somente excêntricos.

Cada um em sua rota…

Posted by MCM at 20:10:37 | Permalink | Comments (13)

Friday, July 6, 2007

Uma história de rir

O rapaz de riso fundo levava muito a sério a vida e o mundo. Cansado de ser adulto e sisudo, e de tão sério lhe parecer tudo, perdeu-se de amores por uma rapariga que o fez rir.

Descobriu no riso a festa de viver com paixão e loucura, rindo amiúde e com prazer. Ria sempre muito com o corpo todo, como se o riso o vestisse como um fato completo. Ria com sentimento e graça, pondo-se todo no riso que o estremecia de cima abaixo.

Um dia, perguntaram-lhe “de que te ris tanto?”. “De ti e do mundo” respondeu, rindo até ao fundo. Os outros olhavam-no com espanto e pensavam “coitado, está perdido”, mas o rapaz do riso fundo não estava nada perdido! Estava muito bem orientado, sabia bem o que queria e para onde ia.

Pela rapariga que o fez rir, perdeu o ar que tinha e passou a rir sempre, mesmo que fosse só com o olhar. Começou a viver melhor, a despertar invejas em redor, mas não se ralou nada e continuou a rir sonoramente. 

No dizer dos demais, perdeu também a cabeça e, rindo, convidou a rapariga para casar. Ela aceitou a rir, também. E a rir casaram, numa manhã de primavera, sentados numa ravina salpicada de giesta em flor. Tiveram como  testemunhas daquele acto de loucura, 20 cabras malhadas e um cão cego. E um padre que chorava a rir, enquanto os declarava Marido  e Mulher…   

 

 

Miriam                                                        

Posted by Miriam at 23:23:52 | Permalink | Comments (34)

Linguagem da Terra - Linguagem do Amor.

Veio do mar o rapaz que ama a terra com fervor. Das entranhas retira-lhe o muco que acaricia com volúpia, e nas árvores abraça ramos sem  folhas. Beija-os com tanto ardor que embranquecem e brilham ao olhar, no desejo de qualquer.

Brinca com o esperma da terra, molda-o com precisão-paixão,  prende-o com invisíveis fios de carinho nos tensos fios coloridos esculpidos em levíticas formas, por um par de mãos criadas para amar. E pinta em panos virginais gentes, bichos e mitos, como só baião baiano pode: derramando-se em místico amor, enquanto bota um peixe no olhar, um minotauro a namorar, um índio a encher.

Baião baiano veio do mar amar a terra, p’ra ensinar a palavra amor a quem  quiser amar. 

Miriam

Posted by Miriam at 22:56:42 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, July 3, 2007

S/T

“Não há impossíveis”, disse o poeta num fim de tarde, cravando um olhar carregado de palavras nos olhos da rapariga. Ela fitou-o surpreendida, com o ar de dúvida de quem duvida, mas que quer acreditar. Que precisa de acreditar. “Talvez”, murmurou em tom inaudível.

Subiram. O ascensor era uma ampulheta:  viajaram pela areia sem dar-se conta da vertigem.  Quando acordaram do sonho repentino, tinham voltado ao ponto de partida. Corrigiram a rota e atracaram no pico do edifício, extasiados com a paisagem da cidade a cor a luz o rio, as telhas rubras resvalando em cascata pela encosta do castelo, o verde vibrante do arvoredo, o azul impensável das águas. Uma gaivota riscou o céu, asas apontando a direcção dum telhado sobre eles: fado fatum fatalidade, as cordas duma guitarra mal gemida a trinar em pretéritos imperfeitos, conjugados em improváveis descobrimentos…

A rapariga invejou a  liberdade da gaivota. Invejou a liberdade do poeta. Seguiu a gaivota com o olhar. Poisou-o no olhar líquido do poeta. Desviou-o para o  casario à sua frente e pensou que as janelas das casas “são os olhos da cidade”. Que a cidade tinha mil olhos ou mais, mas cegos cegos demais para ver-se cega e vagabunda, perdida de si mesma em todas as partidas sem regresso.  

Pegaram nos copos, brindaram não-importa-a-quê e a rapariga cansada do fatum, abriu os braços e arriscou um vôo até à praia dos possíveis. O poeta?

- Tornou-se um pintor de essências em azul.

 

Miriam

Posted by Miriam at 18:36:14 | Permalink | Comments (4)