O rapaz de riso fundo levava muito a sério a vida e o mundo. Cansado de ser adulto e sisudo, e de tão sério lhe parecer tudo, perdeu-se de amores por uma rapariga que o fez rir.
Descobriu no riso a festa de viver com paixão e loucura, rindo amiúde e com prazer. Ria sempre muito com o corpo todo, como se o riso o vestisse como um fato completo. Ria com sentimento e graça, pondo-se todo no riso que o estremecia de cima abaixo.
Um dia, perguntaram-lhe “de que te ris tanto?”. “De ti e do mundo” respondeu, rindo até ao fundo. Os outros olhavam-no com espanto e pensavam “coitado, está perdido”, mas o rapaz do riso fundo não estava nada perdido! Estava muito bem orientado, sabia bem o que queria e para onde ia.
Pela rapariga que o fez rir, perdeu o ar que tinha e passou a rir sempre, mesmo que fosse só com o olhar. Começou a viver melhor, a despertar invejas em redor, mas não se ralou nada e continuou a rir sonoramente.
No dizer dos demais, perdeu também a cabeça e, rindo, convidou a rapariga para casar. Ela aceitou a rir, também. E a rir casaram, numa manhã de primavera, sentados numa ravina salpicada de giesta em flor. Tiveram como testemunhas daquele acto de loucura, 20 cabras malhadas e um cão cego. E um padre que chorava a rir, enquanto os declarava Marido e Mulher…
Miriam