TERRAMAR
Sou feita de mar. E sou do mar, apenas. Não sou de ninguém. Nasci no mar e com ele me criei. É ele que me lava a alma, quando a vida pesa demais.
O rapaz olhou-a com simpatia. O vestido dela caía-lhe pelo corpo, como um jorro de água. E de tão diáfano quase nem a cobria, pensou, sorrindo-lhe. Com a ponta dos dedos arredou um pouco do tecido, descobrindo-lhe o ombro direito. Sorriu novamente. Era azul a alça do sutiã. Como o vestido. Lembrou-se então que, um dia, ela lhe confidenciara que usava sempre lingerie a condizer com o tom da roupa de fora.
Apertou a mão que ela lhe estendia, num gesto de entendimento recíproco. A canícula da tarde não autorizava mais que o exercício da inocência. Fica, pediu o olhar da rapariga, não posso, respondeu o olhar dele. Parto em breve, não sei quando, mas partirei por um caminho que ainda desconheço. E que julgo conhecer, que julgo seguro. Quero arriscar. A minha inquietação não casa com o dado. Atraem-me as incógnitas, o mistério. A aventura e a mudança, pensou, silenciando-se ainda. Procuro sempre a impossível perfeição.
Aqui tens mar, devolveu-lhe o pensar da rapariga. O mar não conhece senão a rotina das marés e nem elas são sempre iguais. E serei eu a tua oferenda. Amar-te-ei com o canto lânguido de todas as sereias inventadas para Ulisses e ainda assim serás livre. Livre, com a liberdade única do mar, que a terra jamais te dará…
O rapaz devolveu-lhe um murmúrio. Um olhar magoado. Indeciso. Pensou na terra e no verde dos campos da sua infância, nos fartos seios da serrania e nos filhos das árvores alheias, paridos de outros, mas que ele cuidara, vigiara, podara, até partir cansado de tudo.
Olhou-a de novo, sem ver. Olhar ausente. Tempo indecifrável. Ela fora âncora, porto de abrigo, promontório onde atracara no acaso de uma maré exaltada. Viu uma ilha temporária de águas cristalinas e areias sedosas. Viu-a sorrir, viu as escamas faiscantes de uma cauda soberba devolverem-lhe uma imagem que o assustava. Teve medo.
Pediu a conta e levantaram-se. Tomaram caminhos diferentes. Ele escreveu-lhe uma carta que ela leu já em mar aberto. E em pleno equinócio de verão, choveu choveu choveu, choveu como nunca se vira chover até então.
E diziam os pescadores da praia pequena que, olhando os céus com atenção, por entre a chuva se veria, sentada numa nuvem, uma sereia que chorava, chorava chorava chorava com saudades do homem da terra.
…Ainda hoje os ilhéus dizem, que o mar é morada di sódade.