Friday, February 20, 2009

A minha Ruptura com a Escrita, de J.A. Reis Mendonça

OK! Chega! Já percebi tudo! Então eu esforço-me que nem um Neruda a dizer bem de um livro e nem sequer levo mais que uma miserável cruzita no fim da página!? Nem ao menos um “thanks for sharing but don’t leave your job”?…’Tá na altura de partir para outra. O que não falta para aí são Artes casadoiras! Já vi que contigo não me safo.

O que é giro (eu disse “giro”?) é que isto nem é a primeira vez que me acontece.

Primeiro foi a Pintura. Foi um daqueles amores da Primária, pueril. Desenhei e pintei conforme as instruções que a mestre-escola me dava para a conquistar. A minha dedicação era bem evidente pela paleta de cores que eu trazia todos os dias para casa nos dedos, cara e bibe, este sim realmente o pior sítio para trazer aguarelas para casa segundo fez questão de me esclarecer a minha Mãe, em linguagem acentuadamente gestual. (Acho que as Mães têm um instinto nato para afastar os filhos da concorrência…)

Já no Liceu foi a Música. Era uma daquelas paixões adolescentes, ardente mesmo. Quase todos os meus colegas tinham casos com ela e pensei que até eu poderia ter alguma sorte com ela. Pareceu sorrir-me mas rapidamente me abandonou. “Eh pá, não estamos em sintonia (ou teria dito “desafinas”?). Desculpa mas é melhor fazeres-te à vida, meu!” (nesse dia ela estava numa de punk). Segui o conselho e nunca mais me meti com ela.

Quase a seguir apaixonei-me pela Dança. Enfim, não pela Clássica mas pela do meu campeonato. Pode um puto, na sua legítima puberdade, passar sem a Dança? E como é que depois se safa nos bailes de finalistas? A beber minis ao balcão? Um pequeno defeito (dois pés verdadeiramente esquerdos) era razão suficiente para ela me fugir? Mais tarde ainda tentei uma reconciliação serôdia, alegando que os dois pés se tinham transformado respectivamente em pé de direita e de extrema-direita mas ela manteve-se imune à moda da deriva de direita. Três a zero!

Depois atirei-me à 7ª Arte. O que eu sofri para a conquistar! Marquei encontros no Quarteto e em outros sítios do género onde a sabia parar. Tive por companhia outros candidatos, que lhe faziam mais o género, malta de óculos de aros grossos e livros de referência debaixo do braço. Sempre se me mostrou evasiva até que me fugiu penso que para França. Para me vingar ainda fui a uma sessão no Cinebolso. Curiosamente alguns filmes eram bastante parecidos nos diálogos, só que mais enérgicos na acção. A assistência também se assemelhava só que trazia gabardinas em vez de livros.

Agora és tu, Escrita, que não queres nada comigo. Não tenho jeito? Olha a grande novidade!

Também não sou amigão de um único dono de uma editora XPTO que me aceite e me promova (o que me podia até dispensar daquela parte chata do talento). Tu, todas as semanas, tens 250 novos pretendentes a baterem-te à porta. E isto só cá! Eu faço ideia do assédio que tens com os camones! E invariavelmente trocas quase toda esta malta pelos teus velhos amantes que já ninguém se atreve a questionar quando se arrogam, alto e em bom som, que tu já lhes pertences.

Olha, sabes que mais? Vai à merda!

José António dos Reis Mendonça

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Posted by JCN at 13:55:26
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One Response to “A minha Ruptura com a Escrita, de J.A. Reis Mendonça”

  1. i love your blog, will keep looking you blog every day.

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