Friday, February 20, 2009

Carta de desamor, de Aleksandra D.

            Um dia precisei de ti sem saber quem eras, e do nada brotaste. Sentaste a meu lado e conversámos. Era como se sempre tivesses feito parte da minha vida e contigo sentia-me segura. Apaixonamo-nos. Por ti, lutei contra tudo e rejeitei sem hesitar os que não desejavam a nossa felicidade. Resguardei-me na armadura que forjei para nós e pensava: se não existisses tinhas que ser inventado. Tantas vezes me apontaram o dedo acusador: maluca!, diziam. Não acreditavam num homem tão perfeito e ameaçavam-me de horrores que não me atrevo a repetir: pobres almas, não compreendiam. Pois eu sabia que o nosso amor seria mais forte e que, ultrapassados estes embaraços, iríamos acabar juntos, alheios ao mundo que insistia em condenar a nossa relação.

            A minha mãe soluçava, o meu pai berrava que correria contigo à paulada se não me sumisses da cabeça naquele preciso instante e a minha mãe chorava mais. Não eram grandes visionários e queriam proibir o amor que nos unia e tornava um só, por isso aceitei fugir contigo. Corramos pois!, pensei, pois és tudo em mim e nada mais preciso. Cega, pela calada da noite, segui os teus passos. Fugimos. Meu amor, tinha-te seguido para lá da vida terrena, tinha saltado do penhasco à mínima sugestão tua, quis caminhar como tu sobre as ondas do mar bravo da tempestade, mas subitamente as minhas acções foram descobertas e condenadas: pela força arrancaram-me para longe de ti.

            Entao veio o internamento. Nao era maluqueira, argumentava, apenas louca paixao! Mas a linha que as distingue é ténue, e o meu coração era o único que ouvia a verdade. Como um beijo suave, sussuraste a promessa da tua dedicação. Renasci forte. Estavas lá para o meu acordar e sentia a tua presença durante os doces sonhos, onde finalmente éramos só nós, um só. A doida da cama três dizia que fazíamos um bonito par, enquanto te lançava olhares esfomeados de carne e de amor. A invejosa!, mas eu compreendia, tinha tanta sorte em te ter. Opunham-se às visitas e esgueiravas-te para debaixo da cama enquanto as enfermeiras me traziam, orgulhosas, as últimas modas de farmacologia. Agora eu sou lá alguma mentecapta!, gritava, mas acariciavas a minha mão disfarçadamente e acalmava. Obediente, engolia a nossa morte com dois goles de água.

            E era a súbita metamorfose. A outra saía e lentamente emergias do esconderijo: mas vinhas tão diferente! Mudado, mais ténue, mais calado. Sentavas na poltrona ao fundo do quarto e olhavas-me de esguelha: já não me fitavas da mesma maneira. A situação repetia-se e afastavas-te mais. Não percebia: esquecer-me-ias pelas pernas da enfermeira? Sim, era jovem e bonita, mas afinal a que cama em tempos ajoelhavas e declamavas versos de amor e coragem?! Aquela lá nem dá conta que existes, recojizava eu, mas a tua face permanecia inalterável, vazia de expressão e oca de sentimentos. Receava. Porque não me olhas, pensava e dizia, porque mal te vejo? Optavas por não responder e investias o resto da tarde a olhar languidamente pela janela, absorto em pensamentos que não me deixavas ouvir. Murmúrios enchiam a ala e lágrimas os meus olhos. Começava por te observar, mas quiçá o efeito dos comprimidos ou a tua falta de atenção pesavam-me as pálpebras e dormitava. De ora a ora, despertava do sono para não te encontrar. Desaparecias e estava só. E chorava, como a minha mae. Visitavas-me menos, as drogas punham-me tonta e via-te gradualmente com menos nitidez. Esmorecias, como o nosso amor.

            Eis que avisto o espelho e vejo-me. Recordo e vejo-te. Vejo-nos aos dois num só. Lembro-me: eu sorria e tu sorrias. Agora não sorris, olhas para o lado. Desvaneces. Chamo-te. Silêncio… Deixas-me só? Deixas-me só! Renuncias-me! Vencido pelas críticas alheias, assim cedeste. Ingrato! Os teus pensamentos, a minha vontade: devota a ti, agora abandonada. Pois vai. Merecerás melhor que uma mulher acamada, mas não te perdoo a frieza. Como odeio ter acreditado nas tuas promessas, ter imaginado que estarias ao meu alcance, quando os bata-branca me tentavam convencer do contrário com discursos mansos e infantilizados. Tu prometeste a nossa união eterna se te seguisse. Vil criatura, dizias amar-me e de bom grado acreditei nessa utopia que agora vê um fim. Tudo por causa daquelas malditas drogas, que me acinzentavam o mundo e ensurdeciam para as tuas palavras! Agora já não te oiço, já não te vejo, já não te sinto. Esmaga-me a amargura e a dor. Deitada, fito o tecto. Os da bata branca consolam os meus pais aos pés da cama: parece que o tratamento das minhas alucinações tem surtido efeito e, por ora, a esquizofrenia está sob controlo, seja lá o que isso for. Vou voltar para casa, vai ser tudo como dantes. Alegram-se, suspiram, a minha mãe força o tímido sorrir. Mas eu fito o tecto e só ouço a angústia do teu silêncio.

 

Lisboa, ala psiquiátrica, cama 2                                                                      (por Aleksandra D.)

 

 

Ao professor:

  Note-se o estádio embrionário deste tipo de linguagem: não me é habitual escrever desta maneira, mas resolvi experimentar e aguardo críticas ansiosamente. Quanto a dualidade amor/desamor como conteúdo, lamentavelmente não os consegui separar com clareza, como me pareceu que pretendia. No entanto, vou me justificar apelando à dificuldade em falar de desamor sem explorar a mágoa dos bons tempos perdidos que se recorda – e quantas vezes não surgirão ambos em simultâneo conflito, numa mixórdia de sentimentos contraditórios?! Para mais, todo o conceito deste tipo de carta parece-me utópico: quem, no seu perfeito juízo, se iria dar ao trabalho e perder o seu precioso tempo com cartas de desamor puro? Cartas de amor são deliciosamente ridículas, mas as de desamor ainda menos sentido fazem: nada diz “odeio-te, não te quero ver mais e foste a pior coisa em que tive o azar de tropeçar na vida” como a insubstituível murraça na tromba. Quais cartas!…

            Sugiro que nao fique pelas lamúrias sem-sal iniciais. Procurei acelerar o ritmo no decorrer do testemunho ao sabor das abruptas mudanças de humor, e vou depenando a  relação e o tal amor alucinado à medida que os fármacos surtem efeito, para mudar drasticamente a perspectiva do leitor no final. Fui bem sucedida nesse aspecto? A carta tem remetente e destinatário implícitos, não me fez falta atribuir-lhes um nome ou formalizar a situação, que por si foge à norma. Quis intitular o desabafo da jovem como Se não existisses, mas receei que o texto se tornasse demasiado óbvio e já dou pistas mais que suficientes da real situação no decorrer do enredo.

            A minha impressora pede as mais sinceras desculpas pela falha na segunda-feira: é do tempo, sabe, até as máquinas têm direito a uma funesta gripezinha.

 Aleksandra D.

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Posted by JCN at 13:46:33
Comments

3 Responses to “Carta de desamor, de Aleksandra D.”

  1. Anonymous says:

    Muito bom, gostei da lunática presa ao domícilio de uma cama de ferro. Gostei do estilo, se calhar por ser parecido ou então por ser bem sucedido. Parabéns.

  2. You still write on here! Thanks :)

  3. You are thinking, lots of hard work, much clearer, super progress, I am proud of you, showing your stuff, that’s the way, keep studying, almost there, so close, better than ever, I knew you could do it, way to go.

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