Friday, February 20, 2009

Carta de desamor, de Hermínio Corrêa

 

Cup of Tea

 

 

Está tudo acabado entre nós! Estou farto, não aguento mais esta situação…

Todos diziam que tínhamos sido feitos um para o outro e tinham razão. O criador dotou-te de curvas bem definidas e a mim fez-me mais rectilíneo, com uma reentrância onde te encaixavas perfeitamente. Os primeiros tempos da nossa vida foram fenomenais! A nossa lua-de-mel passámo-la numa loja do Gato Preto, dentro de uma caixa de cartão, muito juntinhos e embrulhados em “lençóis” de seda. Dizias que me amavas, e eu acreditava…

Depois quando nos mudámos para casa, a nossa vida melhorou. Passámos a viver na cristaleira da sala de jantar, e a fazer parte do “jet-set. Frequentávamos chás canasta e tu eras sempre o centro das atenções… Chás de toda a parte do mundo disputavam os teus favores, mas tu, sempre fiel à tua linhagem, preferias sempre os ingleses. E eu ficava ali, deslumbrado a ver-te. Sentindo teu corpo a aquecer, seguindo teus movimentos para cima e para baixo, até te recolher toda só para mim. Depois, seguíamos muito juntinhos para a máquina de lavar a loiça, onde a seguir a uma pré-lavagem brincávamos com os flocos de detergente como crianças a brincar com a neve.

Foram tempos maravilhosos!…

Mas aos poucos e poucos as coisas foram-se desmoronando. Primeiro alguém resolveu meter entre nós uma colher. Eu devia ter desconfiado… Devia–me ter lembrado do ditado “entre marido e mulher não metas a colher”. Mas o que é certo é que a meteram, e foi aqui que começou o meu calvário.

Os chás canasta deram origem aos “five o’clock tea” e eu ficava ali amparando-te, enquanto a colher te penetrava, e com gestos mais ou menos ritmados, te punha a cabeça a andar à roda. Eu roía-me todo de ciúmes, mas fazia um esforço para disfarçar, pois não queria que tu pensasses que eu era “old fashion”. Mas mal sabia eu, o que estava para vir…

A partir daqui começaste a agir de um modo diferente. Já não procuravas a minha companhia, e às vezes à noite quando eu fingia que estava a dormir, via-te a  saltitar de pires em pires. Tudo isto fui aguentando por amor!

Mas o destino reservava-me outras surpresas maiores…

 De repente abandonaste os “Timings” e os “Whittard” e começaste a meter-te nos pozinhos. Primeiro os cacaus, depois os chocolates, desprezando por completo as tuas origens de uma verdadeira “cup of tea”!

 E foi o começo da tua desgraça!

 De pó em pó foste parar à cafeína, e como se isso não bastasse, começaste a juntar-lhe um “cheirinho”. Foi o fim.., deixaste de ir à máquina de lavar e passavas as noites de pernas pró ar no lava loiças, a curtir o teu “cheirinho”.

Basta!

Para mim basta!

Acabou tudo entre nós. Quando voltares, já não estarei na cristaleira da sala, pois mudei-me para o armário da cozinha. Quero ser livre, quero viver as coisas simples da vida, como sentir o peso de um brigadeiro, ou de um pastel de Belém. Quero que me encham de mousse de chocolate, leite-creme ou bavaroise de ananás.

Enfim…quero viver a minha vida sem ti.

Adeus Xícara, até sempre!

 Pires

 

Nota: Cup of tea ao receber tal missiva, não aguentando tamanha dor, aproveitou umas mãos engorduradas e deixou-se cair no chão ficando totalmente destroçada!

  Hermínio Corrêa


*

 

Posted by JCN at 13:51:43
Comments

2 Responses to “Carta de desamor, de Hermínio Corrêa”

  1. Anonymous says:

    Excelente naco de prosa. O tema, recorrente em todos os cursos, traz de quando em vez belos momentos de leitura, como este.
    Parabéns a quem o escreveu.

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