Thursday, February 26, 2009

Desamor de vida, por Rui Mateus

Acabei de me levantar, tomando uma decisão, acabar com esta relação, um desejo latente de muito tempo, tempo demais, mas como diz o povo mais vale tarde do que nunca …tarde essa, maldito dia, que aparece soalheiro, dia impróprio para terminar uma relação que tem me atascado até ser dolorosa.

Custa a levantar, não é de hoje, não aguento a sua presença, é horrível pensar assim é horrível senti-la, um sentimento atroz, de que toda uma vida ou parte dela não valeu a pena estar junto nesta…relação, esta deixou de ser há muito tempo. Tempo em que apanhava o eléctrico, aquele amarelo que sobe e desce as colinas nesta cidade onde me aprazia estar, mas mesmo esta cidade me importuna, me sufoca, me repulsa…maldito sol que me queima, ele que parece dizer… não é possível acabar uma vida, um sentimento, neste dia tão cheio…merda, mas estou decidido. Não há nada que me impeça, nem o rio, aquelas águas que me obrigavam a soerguer cedo, astro rei a levantar com pompa e circunstância, imponente que quase me sufocava de deslumbre, ao contrário da tua presença, maldita sejas, figura sempre deprimente, chorosa, impotente de alegrares com o som daquele pássaro que todas as manhãs chilreava de contentamento, continuo sem saber o porquê dessa alegria obscena, presa numa gaiola, sim nem mesmo nesta jaula doirada te sentes bem, até televisão com cabo temos, duzentos canais, embrutecimento, tristeza, nada te serve, nada mesmo só o sofá, deitas nele, depois de emborcar aqueles remédios de várias cores, sem remédio.

Dormir até não poder mais, tu que metias a caminho e percorrias de lés a lés estas calçadas onde por baixo passam arroios estes em tempos eram livres como nós, agora presos, sem conseguirem saltar as muralhas de cimento, este mesmo muro que nos envolve há tempos, insuportável. Não sei se começo escrever a dita carta antes de tomar o café, esse líquido que todas manhãs me aprazia saboreando languidamente, nem este prazer me serve, as pernas actualmente me entorpecem, nada de cafeína, a carta…

Amar entre os lençóis que saudades, sentir um cheiro diferente do que o meu, um entreolhar depois de fazer amor com cumplicidade, bolas nem isso consigo, relação frígida, sem nexo, sem consumação, agora só masturbação mental…levantemos, encaremos as coisas como são tudo menos esta perca de sentidos, impossível continuar esta relação com a vida, basta uma nota, nada de floreados…até o espelho me tolhe a visão, não consigo encará-lo é a imagem desta relação, enevoada, sem cor…vendo bem este dia com este azul, só nesta cidade eu considerava único, nem isso me comove, me subtrai à vivência desta relação inócua, absurda, safa eu disse sem floreados e evitar os pleonasmos.

Nota feita, abramos a janela…só sinto uma leve sensação de peso, um sino ao longe, será…

Rui Mateus

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Posted by JCN at 14:00:14
Comments

One Response to “Desamor de vida, por Rui Mateus”

  1. Good job! …You did it!

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