Friday, March 20, 2009

Tarde de Chuva

Um dia ela abriu a janela e consagrou-se perante o inevitável. Estava de chuva. Sim, chovia. Chovia a potes na verdade. Ela não sabia o que fazer a seguir, poderia esperar que ele apareçe-se de repente, ignorando-o se ele mostrasse chorão como ele tão bem sabia fazer ou poderia telefonar-lhe já a seguir a dizer que o amava. Dúvidas. Se chovia tanto era muito bem provável que ele nem sequer apareçe-se, mas se for assim, então não havia outra coisa mais a fazer do que tomar um banho de sais e esperar que o seu buraco interior pudesse desvanecer nas eternas águas da saudade. A saudade era muita, era feroz e irreconhecível por vezes, ela derretia-se por dentro, curvava-se, abria seu coração de repente numa fulgrante demonstração de afecto mas não o podia demostrar muito além. Quer dizer, se o fizesse quem iria ele achar que ela era? Não que não o desejasse, aquém, além, dentro de si, não que não o fizesse enfrentar os seus próprios demónios. Sim, nada o faria adivinhar, mas tudo transparecer. Tudo isso era claro. Era evidente que o amava, mas como enfrentar tal desígnio sem um relevo de segurança? Ele era um incapaz, um inútil da sociedade que só se dedicava à jardinagem, um zé-ninguém portanto. O que sabia ele do amor afinal? Idiota. Se calhar só está a fazer birras por causa da mamã não lhe ter dado o lanchinho. Quando fomos passear nem sequer olhou para o meu vestido novo, nem sequer soube trazer-me de madrugada. Filha da mãe, filha da mãe, porque me deixaste no outro dia ao almoço? Porque tiveste de ir a correr salvar as petúnias enquanto comíamos a sobremesa? Filho da mãe. Idiota. Tão bonito. Tão amável e razoável quando choras. Tão suave ao cair da noite. Ao cair do dia. Parou de chover. Afinal, não vou tomar banho.
Posted by Rui Ferreira at 23:25:03
Comments

One Response to “Tarde de Chuva”

  1. download says:

    You are so totally right (write!)

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