«VIAGENS NA MINHA TERRA», de Almeida Garrett
Teria onze ou doze anos quando o li pela primeira vez. Eu devorava livros e foi mais um. Voltei a lê-lo no programa de Literatura Portuguesa do curso dos liceus. Enriqueci-o, então, com os conhecimentos que ia adquirindo nas aulas – época histórica; dados biográficos do autor e convicções políticas que o levaram ao exílio; o Romantismo como movimento literário e introdução na literatura do subjectivismo, do individualismo e dos sentimentos pessoais. E essas impressões de viagem, entrecortadas de constantes divagações e opiniões do autor, tornaram-se uma leitura agradável se bem que tivesse apreciado bem mais o escritor como dramaturgo - «Frei Luis de Sousa» - e como poeta - «Flores sem Fruto» e «Folhas Caídas».
No entanto, não foi senão uns anos mais tarde, quando tive de o ensinar aos meus alunos e me voltei a debruçar sobre a obra, que verifiquei que quanto mais a estudava mais a apreciava e se me afigurou, então, ter grande mérito. Desde logo, a sensação de uma lufada de ar fresco na literatura portuguesa. E depois, o aperceber-me de que, sob a capa enganadora de um romance aparentemente fácil e inocente, se escondia uma obra complexa e de uma certa profundidade psicológica. Partindo duma situação já recorrente e, portanto, pouco imaginativa, em que Carlos é filho de um frade que faz a desgraça da mãe e da sua família; em que pai e filho têm ideias políticas antagónicas e se encontram a combater em facções opostas e em que há um reconhecimento final – «O Arco de Sant´Ana» e «Catão» - o autor consegue, apesar de tudo, fazer do protagonista principal um verdadeiro herói. Sentimental, apaixonado e inconstante, incapaz de encontrar um equilíbrio estável e um amor na sua vida, Carlos vive paixões sucessivas até encontrar Georgina, a mulher que diz «amar verdadeiramente» mas que também o deixa quando finalmente compreende o seu carácter. Garrett faz muito bem, e pela primeira vez na nossa literatura, a análise subtil de sentimentos amorosos e sabe dar voz à dualidade verdade/sublimação versus mentira/ficção que tantas vezes coexiste no nosso espírito.
À crise passional junta-se a desilusão do seu ideal político e revolucionário, o destroçar dos sonhos da sua juventude. E Carlos, a quem a felicidade de uma vida simples ou a glória de morrer como herói foram negadas escreve, num último gesto teatral, uma carta onde analisa, desta vez com verdade, a sua situação. Desiludido e céptico, antevendo um possível futuro de mau político ou agiota, Carlos, numa atitude de herói trágico submete-se ao destino a que não consegue fugir e rende-se ao capitalismo do Constitucionalismo.
M. Manuela T. Cruto e Silva
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