Monday, February 9, 2009

«VIAGENS NA MINHA TERRA», de Almeida Garrett

Teria onze ou doze anos quando o li pela primeira vez. Eu devorava livros e foi mais um. Voltei a lê-lo no programa de Literatura Portuguesa do curso dos liceus. Enriqueci-o, então, com os conhecimentos que ia adquirindo nas aulas – época histórica; dados biográficos do autor e convicções políticas que o levaram ao exílio; o Romantismo como movimento literário e introdução na literatura do subjectivismo, do individualismo e dos sentimentos pessoais. E essas impressões de viagem, entrecortadas de constantes divagações e opiniões do autor, tornaram-se uma leitura agradável se bem que tivesse apreciado bem mais o escritor como dramaturgo - «Frei Luis de Sousa» - e como poeta - «Flores sem Fruto» e «Folhas Caídas».

No entanto, não foi senão uns anos mais tarde, quando tive de o ensinar aos meus alunos e me voltei a debruçar sobre a obra, que verifiquei que quanto mais a estudava mais a apreciava e se me afigurou, então, ter grande mérito. Desde logo, a sensação de uma lufada de ar fresco na literatura portuguesa. E depois, o aperceber-me de que, sob a capa enganadora de um romance aparentemente fácil e inocente, se escondia uma obra complexa e de uma certa profundidade psicológica. Partindo duma situação já recorrente e, portanto, pouco imaginativa, em que Carlos é filho de um frade que faz a desgraça da mãe e da sua família; em que pai e filho têm ideias políticas antagónicas e se encontram a combater em facções opostas e em que há um reconhecimento final – «O Arco de Sant´Ana» e «Catão» - o autor consegue, apesar de tudo, fazer do protagonista principal um verdadeiro herói. Sentimental, apaixonado e inconstante, incapaz de encontrar um equilíbrio estável e um amor na sua vida, Carlos vive paixões sucessivas até encontrar Georgina, a mulher que diz «amar verdadeiramente» mas que também o deixa quando finalmente compreende o seu carácter. Garrett faz muito bem, e pela primeira vez na nossa literatura, a análise subtil de sentimentos amorosos e sabe dar voz à dualidade verdade/sublimação versus mentira/ficção que tantas vezes coexiste no nosso espírito.

À crise passional junta-se a desilusão do seu ideal político e revolucionário, o destroçar dos sonhos da sua juventude. E Carlos, a quem a felicidade de uma vida simples ou a glória de morrer como herói foram negadas escreve, num último gesto teatral, uma carta onde analisa, desta vez com verdade, a sua situação. Desiludido e céptico, antevendo um possível futuro de mau político ou agiota, Carlos, numa atitude de herói trágico submete-se ao destino a que não consegue fugir e rende-se ao capitalismo do Constitucionalismo.

M. Manuela T. Cruto e Silva 

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Monday, February 2, 2009

“História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”, de Luís Sepúlveda

Foi o instinto que me levou a uma história tão fascinante, onde os felinos caseiros chegam a quebrar o seu “tabu” para miar a língua dos humanos e assumir qualquer tipo de risco para estabelecer a ponte de contacto com os ditos racionais, com o intuito de defender um código de honra, a palavra dada, o compromisso.

O livro, que conta uma história de animais falantes e cooperantes, chegou magicamente às minhas mãos através da simples “dica” duma funcionária da livraria onde os meus passos sabiamente me conduziram. Perguntei-lhe, um tanto encabulada pela responsabilidade de ter em casa uma biblioteca com mais de 900 livros, onde os romances de ficção se destacam, se me aconselhava algum pequeno livro de ficção, de rápida leitura, para servir de base a um trabalho a realizar num curto espaço de tempo. A senhora sorriu, fez um pequeno gesto para que eu a seguisse e dirigiu-se à estante onde residiam os livros do conhecido escritor Luís Sepúlveda.

- Qualquer um deste autor é interessante e lê-se rapidamente. Pode levar este, a “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”. É agradável e contém mensagem!

Agradeci, folheei o livro com o espírito santo de uma orelha a lembrar-me do stock que tinha em casa, e fiquei uns minutos esperando na indecisão. Na outra orelha, onde o pai da intuição falou mais alto pelo desejo de engordar um pouco mais a minha já pesada biblioteca, agitou-se a vontade de o comprar e devorar de imediato.

Foram 121 páginas de agradável leitura. Como tinha referido a empregada da livraria, o livro tem MENSAGEM. Encontrei muita informação do saber ser e estar em comunidade com códigos de partilha, honra e lealdade, o que me levou a levantar a questão que há muito me coloco sobre a irracionalidade dos animais.

Desde o levantar da questão ambiental relacionada com a poluição dos mares, cujas consequências são incalculáveis, até ao relato da consciencialização de quem vê, com olhos de bom ver para não generalizar atitudes - lembro-me quando a gaivota Kengah, ao amaldiçoar os humanos pela mortífera maré negra que a ia matar, lembrou que havia embarcações de protestos, decoradas com as cores do arco-íris, que, sem grandes meios, tentavam aproximar-se para impedir as catástrofes irreparáveis - o autor levou-me a sentir que viajava num mundo onde as diferenças dos seres são aceites naturalmente, onde as dificuldades são superadas com a partilha de conhecimentos, onde a união faz a força, onde “todos por um e um por todos”, onde uma promessa de honra contraída por um elemento do grupo é aceite, sem restrições, pelos demais elementos e onde existe a consciência de que o saber leva o seu tempo a aprender.

A Ditosa, filha da gaivota Kengah e nascida do ovo chocado pelo gato preto Zorbas, que queria ser gato porque só conhecia o mundo destes felinos, não podia fugir à sua natureza e ao seu destino. Aprendeu a voar para se poder juntar às suas iguais na grande convenção das gaivotas dos mares, para ser feliz e amar ainda mais aqueles que a ajudaram na adversidade.

Esta história leva-nos a reflectir sobre o muito que os humanos ainda têm de aprender sobre as suas diferenças de cor, religião, culturas e pensamentos e as formas que têm de encontrar para as apreciar, respeitar e amar porque o jogo da vida, sem diversidade, não seria tão empolgante nem atractivo.


Maria do Rosário Vasco


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Sunday, February 1, 2009

“Nova Lusitânia”, de Aydano Roriz

Este livro documenta tramas, vidas e locais cuja leitura é um pitoresco reencontro com a colonização do Brasil. É uma teia de personagens, acontecimentos e sentimentos, tão bem urdida num fundo histórico, que nos faz sentir a época e os episódios como se os vivêssemos. Li-o sem respirar, como a minha avó comia os mil-folhas, saboreando gulosamente, uma a uma, até à última migalha.

É um aceso retrato do século 16, acompanhando Duarte Coelho, o herói, de menino, no Porto, a primeiro capitão donatário da Nova Lusitânia. Naquela cidade é introduzido nas intimidades da corte, onde uma amante de D. Manuel I o iniciou nos prazeres da carne e o vicia num certo prato.

Depois, no Funchal, os passos do então Beleguim são narrados em cores vivas e sensualidade latente… que impele o leitor a espreitar o empernanço de uma magricela ao jovem Duarte! E plebeísmos arcaicos como zé-das-couve ou esticou as canelas transportam-nos a esse tempo e à crueza das falas, deixando-nos rendidos às dos navegadores: “Judeus – cagam, peidam, mijam… São gentes iguais à gente”.

Já na capitania, vemos o agora Dom Duarte entre engenhos de açúcar, cavalos e degredados em situações apimentadas. Roriz mostra-o ainda hábil a lidar com padres, índios e mulherio, chegando a pintá-lo de ousado parteiro… No final, o bastardo de mãe de “baixo nascimento”, é um grande senhor brasilenho com ambições de fidalguia.

Eis, meu amigo, um romance sedutor, com paisagens plausíveis, bravos feitos, gordas cobiças e em que também testemunhamos amores em modos que já não há. Tudo num bom ritmo, com figuras de estilo qb e laivos históricos que nos cativam página a página, que todas li sofregamente.

 Manuel A. Madeira

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Thursday, January 29, 2009

Teletubbies: “A Laa-Laa perdeu a bola”, por Andrew Davenport

Um livro infantil, sim. E não é um livro qualquer. É recortado de forma a que a perdida bola, que o título nos revela, se veja a partir de todas as páginas. Não retrata a angustiante perda de alguém com o infeliz nome de Laa-Laa, nem de como o desaparecimento da coisa redonda pode mudar o equilíbrio do mundo. E, ao contrário do que tal acontecimento faria prever, esta é uma “obra” de ficção. Que eu saiba, os coloridos Teletubbies não existem de verdade… Pensando bem, já não tenho tantas certezas. Pode até ser que pululem, contentes, por aí, mas como ultimamente não tenho ido passear ao Chiado não o posso confirmar.

Poderá “A Laa-Laa perdeu a bola” classificar-se de livro? Claro que sim. Não tem capa? Tem. Não tem páginas? Tem. Não conta uma história? Errrr… sim, julgo que conta. Se tem a consistência de bosta e cheira a bosta, então é bosta. Ou merda, dependendo do estrato social e da soltura da língua do leitor destas palavras.

Porque gosto eu deste livro? Porque a minha filha o adora. Este é o livro que faz com ela se mantenha sossegada, sentada no meu colo, a ouvir a douta sabedoria que Andrew Davenport imaginou. Este é o livro que faz com que eu consiga abraçá-la, sem que ela se tente soltar na irreverência dos miúdos. Este é o livro que permite que eu consiga cheirá-la. E ali fico, naquele estado meio sonho, meio doce realidade. Fico ali, apenas, enquanto conto a parva história de um boneco que não consegue apanhar uma parva bola.

Não preciso de 1800 caracteres para dizer o porquê de gostar deste livro, até porque, no departamento dos livros infantis, este é daqueles que ficaria a um canto sem arranjar trabalho. No entanto, a Carolina gosta. E isso chega-me para este ser, hoje, o meu livro preferido. 

Ricardo Martins


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“Sr. Ventura” de Miguel Torga

Este livro é uma pequena história que tipifica o modo de ser do português, andarilho e saudosista, com os seus sonhos e desilusões, aventuras e desapontamentos. Figura dos meados do século passado, o personagem é , todavia, actual.

      Numa leitura mais abrangente, retrata o português de todos os tempos , o povo e a Nação. A História de Portugal está ali de uma maneira simples, mas na sua totalidade, e na constância que  molda a nossa idiossincrasia, não obstante as sinuosidades cirunstânciais de séculos e épocas.

O Sr. Ventura teve berço rural , brincou aos castelos, virou costas aos horizontes espartilhantes de regedores e padres acomodados , deitou-se ao mundo, abraçou a aventura andarilhante com laivos de iberismo quixotesco, e, qual filho pródigo, regressou , não espampanante de teres e haveres, mas cedendo ao canto da sereia do torrão natal, para, enfim, matar saudades e reerguer o lar e a vida. Saltitando entre amores e desamores, gerou um filho;  conluiando-se com toda a casta de companheiros, ganhando fortunas e desbaratando-as , miscenizando-se sem dar mão do seu temperamento de antes quebrar que torcer, as vicissitudes da  vida devolveram-no ao rectângulo de onde partiu. Seria o filho, estrangeiro em terra paterna, a reconstruir fantasias outras e tentar,  por sua vez, dar a volta à sorte madrasta.

É também assim este Portugal: de parto difícil, sacudiu  os entraves ao crescimento, estabilizou até se aperceber de que já não cabia em tão pequeno espaço o seu tão alto destino. Zarpou à aventura épica de calcorrear novos e desconhecidos mundos, por lá andou numa diáspora persistente, e, esgotados os adamastores , regressou com honra, alguma glória e parcos ganhos. E os filhos que deixou também eles haviam de vir em busca da mesma sorte por que partiu. Agora, estamos todos, nesta “nesga de terra debruada por mar”, lado a lado a construir o sonho da realização.

Trata-se, é certo, de um livro “menor” da extraordinária obra literária de Torga. Escrito em idade viçosa, o autor, mais tarde, ponderou enjeitá-lo, acabando sensatamente por só o podar e enxertar.


Francisco Xavier C. Lopes


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Monday, January 26, 2009

À última hora…

José Luis Peixoto fará uma apresentação na aula de hoje, segunda-feira dia 26.
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Friday, January 9, 2009

Convidados do curso X - lista definitiva

Já temos todos os convidados do curso que começa a 12 de Janeiro:

José Luis Peixoto — 19 de Janeiro
Maria Antónia Oliveira — 28 de Janeiro
Miguel Real — 2 de Fevereiro
Alexandre Vasconcelos e Sá (editor) — 4 de Fevereiro
Patrícia Reis — 9 de Fevereiro
Mário Carvalho — 11 de Fevereiro
Tiago Salazar - 21 de Janeiro
Na forma do costume, os antigos alunos estão convidados a assistir às apresentações, que neste curso serão todas às 19h.

Como diz a filóloga Marina Orlova em “Hotforwords” (procurem no YouTube):
“Goodbye my students. Be good!”
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Monday, December 1, 2008

Cursos de Escrita Criativa: correcção e actualização

Pedimos desculpa pela má informação; afinal agora É PRECISO ter o cartão do El Corte para se inscrever nos cursos. Trata-se de uma novidade — em tempos de crise, até o El Corte precisará de rentabilizar melhor as promoções… Afinal de contas há desasseis milhões de cartões do El Corte na Península Ibérica (ouvimos dizer, não é um número oficial), mais do que cartões Visa!

Mas que ninguém se avexe. O cartão é gratuito, portanto basta a chatice de preencher o formulário de aderência. Quanto ao que está dito sobre, cunhas, está dito.

Outra correcção: os próximos cursos (Janeiro-Fevereiro) são Escrita Criativa, Poesia, Ideias Religiosas e Etiqueta. Este último é o mais cultural de todos, certamente.

Finalmente, as datas definitivas do Curso de Escrita: segundas e quartas, às 19h00, dias 12, 14, 19, 21, 26 e 28 de Janeiro, e 2, 4, 9, 11 e 16 de Fevereiro.
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Friday, November 28, 2008

Cursos de Escrita Criativa: onde, quando e como

Recebemos um “comentário” um dos posts anteriores que nos fez perceber que haverá pessoas que consultam este blogue e não são ex-alunos — portanto nada sabem dos cursos. Para esses (e para a Sara em particular) aqui vai:

O Curso de Escrita Criativa é um dos cursos oferecidos pelo El Corte Inglès de Lisboa (actualmente os outros são: Cinema, Poesia, História de Arte e Música).
Qualquer pessoa pode frequentar gratuitamente um destes cursos. Não é preciso ser cliente registado do El Corte (quer dizer, ter Cartão de Cliente) nem há nenhuma outra limitação genérica ou específica.
Basta ir a um dos balcões de informação do El Corte, pedir uma ficha de inscrição e preenchê-la. Como o número de inscritos é sempre maior do que a capacidade da sala (50 lugares) faz-se uma triagem por ordem de entrada ou aleatoriamente. Os escolhidos são avisados por telefone.
A única cunha aceite é uma referência de um ex-aluno, mas geralmente entra-se sem cunhas. Quem não for escolhido pode sempre inscriver-se para o curso seguinte.
No caso do Curso de Escrita Criativa, são onze aulas de duas horas, duas vezes por semana. O programa do curso consta dos prospectos encontrados em vários pontos do El Corte, especialmente nos balcões de informação. O próximo curso começa em meados de Janeiro e as inscrições devem estar abertas dentro de dias.
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Sunday, November 23, 2008

Mailing list

Completámos a mailing-list dos ex-alunos dos cursos, que ficou apenas com 199 nomes — portanto muito menos do que os cerca de 600 que já frequentaram as aulas.

O que acontece é que se perderam as listas de certas turmas porque ao princípio a base de dados do El Corte Inglès não distinguia uns cursos dos outros; muitos alunos não indicaram o e-mail nas suas fichas; e, como acontece sempre, muitos endereços de e-mail foram entretanto desactivados.
Sento assim, se é antigo(a) aluno(a) de um curso de Escrita Criativa e não recebeu o nosso mail (enviado a partir de uma nova caixa do correio, escrita.criativa@hotmail.com) pedimos-lhe que nos envie uma mensagem (para aqui ou para a caixa da escrita criativa) com o seu endereço.
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