Vagabundos. Parte II e Epílogo-hipótese 1.
Depois do primeiro encontro, nunca mais se largaram. Caixotes vasculhados em busca de iguarias eram, para ela, clubes gourmet em dias de festa. Ele mimava-a com frascos de perfumes rejeitados, caixas de bombons já vazias, embalagens de fumados ainda viscosas do produto - era bom: a gordura serenava o frio e acalmava o buraco no estômago.
Celebravam todas as datas, ainda que vivendo sem relógio nem calendário (ou talvez por isso mesmo). Sabiam que era sábado pela expressão feliz dos outros , domingo pela preguiça das manhãs. Comemoravam, roubando-se beijos à frente de todos e as gentes espantavam-se daquela felicidade desgraçada, enquanto se iam desgraçando nas tramas da abundância. Passavam-lhes de largo, desculpando-se entre iguais com o suposto mau cheiro dos trapos, mas a verdadeira e mais funda razão é que lhes invejavam a in-diferença.
A polícia local veio a saber. Era preciso acabar com aquele desaforo, punir o crime, expiar a culpa de tal afronta - não se pode ser feliz fora dos cânones autorizados…
Prenderam-nos. Espancaram-nos por confessarem uma verdade incómoda: amavam-se incondicionalmente.
Foi-lhes decretada prisão preventiva (como se houvesse alguma prevenção para o Amor! e presos viviam já, na paixão que alimentavam dia a dia; portanto, só lhes retiraram a única liberdade que lhes reconheciam: a de não serem cidadãos).
O juíz descobriu, por uma denúncia do director da prisão, que se escreviam, usando as letras dos pacotes de açúcar. Proibiu que lhes dessem café. Insistiram, agora com as letras dos maços de tabaco que não fumavam e que traficavam com os demais, contando histórias de amor ao entardecer. Foram duplamente punidos: por prevaricação e abuso de poder - tinham semeado sorrisos nos lábios dos que os ouviam.
Ela foi metida numa cadeia perto da serra de Sintra. Ele foi transferido para Odemira. Fugiram, não se sabe ainda como, nem quem os ajudou - os guardas foram ilibados por falta de provas e os processos disciplinares encerrados por caducidade.
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Contavam os pescadores de Porto Covo que os viram ser levados em direcção à linha do horizonte, por um bando de gaivotas, numa madrugada qualquer.
Miriam