Epitáfio
”A Arte é um olhar amoroso sobre a vida.”
Duchamp.
Mãos. Marfim. As tuas mãos cor de marfim. Os teus dedos longos: esguios, suaves. Suavidade de seda. Nos teus dedos de marfim chegou a reluzir o brilho de um aro - um acordo, um projecto ainda sem talvez.
Era fina e acetinada a pele que vestia a forma das tuas mãos. Os veios, os sulcos, as linhas, caminhos indecisos no destino que - avé feiticeiras e adivinhos - lhes vem engastado, assomavam timidamente sob a tua pele. Fina e acetinada. Talvez porque os poros eram muito apertados, tão apertados que nunca me deixaste entrar neles. E eu só queria invadir-te, invadir-te tanto como tu me tinhas invadido a mim. Não por vingança, mas porque amar(-te) me fazia mar e o mar tudo pode, tudo devassa. E fazia-me grande, tão grande como o mar que te fizeste em mim.
Não me lembro dum gesto teu. Não me lembro duma carícia tua. Das tuas mãos só retenho a forma: queria esculpi-las, modelá-las, reproduzi-las em alabastro, ébano, mármore, o que quer que fosse que as eternizasse e, então obra de arte, poderia imaginá-las no meu cabelo , no meu rosto, no meu ombro.
Das tuas mãos só retenho o momento: segurando o jornal horas intermináveis (eu dizia que “estudavas” o jornal, lembras-te?), repousadas no volante, ou no vértice da tua nuca quando buscavas concentrar-te.
Frias. Eram sempre frias as tuas mãos. E eu nunca soube se os arrepios que causavam eram desse frio em que teimavas em fechar-te, ou do calor excessivo que me assaltava quando as segurava nas minhas.
Diluiram-se no tempo. Já não as posso esculpir. Já não quero esculpi-las. Tornaram-se pó igual à poeira do universo. Das tuas mãos , do teu corpo, do teu tempo, ficará tão somente o que existe já: poeira.
Miriam